quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Iniciativas e resistência africana em face da partilha e da conquista

Resenha do texto: Ranger, T. O.: Iniciativas e resistência africana em face da partilha e da conquista, em: Boahen, A. A. (Coord.); História Geral da África, vol. VII, pp. 69-86, São Paulo (Ática/Unesco) 1991.

Saiba mais sobre resistência africana em: África do Sul: Apartheid e Resistência.


O texto é o capítulo 3 do sétimo volume da Coleção História Geral da África que aborda a África sob dominação colonial de 1880 à 1935, com coordenação de Albert Adu Boahen, professor emérito do departamento de História da Universidade de Gana e organizada pela Unesco, especialmente pelo Comitê Científico Internacional da Unesco para redação da História Geral da África. O autor, Terence O. Ranger, é um historiador africanista cujo foco de pesquisa é a história do Zimbabwe, principalmente os períodos de pré e pós independência. Ranger também é “emeritus fellow” do St Antony’s College da Universidade de Oxford na Inglaterra.  
    
Ainda no que concerne ao caráter do texto, de maneira geral, ele trata sobre os movimentos de resistência africanos em oposição à conquista e partilha europeia, assim, apresenta os fatores motivadores para tais movimentos, sejam eles de vertentes de soberania, religiosas ou econômicas. A ideia central se desenvolve da concepção de que houve uma resistência geral dos povos africanos e que “praticamente todos os tipos de sociedade africana resistiram e a resistência manifestou-se em quase todas regiões de penetração européia” logo a ideia, questão central do texto e também intenção acadêmica do autor é “determinar e explicar os diversos graus de intensidade em que ela ocorreu”.

A estrutura do texto possui uma parte introdutória e a seguir é dividido em 6 seções, baseadas essencialmente na ideia central: (1) generalização da resistência, (2) a ideologia da resistência, (3) o papel das ideias religiosas, (4) consequências e relevância da resistência africana, (5) a cronologia da resistência: interpretação econômica e por fim, a (6) conclusão. A parte introdutória é responsável por definir a problematização e o objeto a ser estudado e exposto ao longo do capítulo. Certo da importância da resistência africana frente a dominação europeia, o autor remete-se as pesquisas e apresenta 3 postulados gerais, ideias que inclusive desenvolve em toda estrutura do texto, acrescentando as propostas e críticas que fazem aos mesmos, são eles: (a) “afirmou-se que a resistência africana era importante, já que provava que os africanos nunca se haviam resignado à ‘pacificação’ europeia” (b) “sugeriu-se que, longe de ser desesperada ou ilógica, essa resistência era muitas vezes movida por ideologias racionais e inovadoras” (c) “argumentou-se que os movimentos de resistência não eram insignificantes; pelo contrário, tiveram consequências importantes, e têm, ainda hoje, notável ressonância”. 

Em “generalização da resistência” o autor apresenta a concepção europeia de que os povos que eventualmente não ofereciam resistência eram tidos como pacificos, concordando com a ideologia de paz e libertação da historiografia europeia tradicional e os que resistiam eram considerados incapazes de organizar algum tipo de movimento racional, argumentando-se que eram levados por extintos puramente “primitivos e irracionais”. No trabalho de refutar essas ideias, A. B. Davidson afirma que os movimentos de resistência foram organizados e que “se tratava de guerras justas de libertação, motivo pelo qual recebiam o apoio da imensa maioria dos africanos”. Nessa seção  dá-se o argumento de que os movimentos foram generalizados, tanto nos povos com e sem “estados” centralizados mas com “diferenças de intensidade de uma região para outra (...) em amplitude e duração”.  

A “ideologia da resistência” posiciona-se contra o caratér colocado pelos defensores do colonialismo a resistência armada considerada como desesperada, irracional e supersticiosa. No debate das causas para o combate desses argumentos  dois pontos importantes devem ser destacados: “atribuíram à revolta ideologias estritamente profanas; por outro, ‘sanearam’ as ideologias religiosas”. Jacob Ajayi é o principal teórico do princípio de soberania como principal motivo das revoltas, soberania esta que devia ser defendida da influência de outros poderes, esse princípio serviu de base para a ideologia da resistência, o autor indica uma correção, no sentido de que “os dirigentes nem sempre foram, de forma patente, ‘guardiães da soberania do povo’”. Porém, “o papel das ideais religiosas” tem sido reafirmado e classificado como de importância, inclusive como complemento as questões de soberania, ou seja, os assuntos espirituais, símbolos, conceitos religiosos e os chamados “profetas africanos” levavam a legitimidade na defesa da soberania.

Quando aborda as “consequencias e relevância da resistência africana” o autor defende o visionário dessas revoltas na formação de um nacionalismo africano que chega até mesmo a  culminar em movimentos nacionalistas de independência. Em sua perspectiva esses movimentos de resistência não tiveram apenas uma causa, mas foram multifacetados, além de princípios de soberania e idéias religiosas expõe a interpretação econômica que “como a primeira corrida ao território e à soberania, a segunda corrida à mão de obra também encontrou resistência”. Por fim, conclui que as “novas perspectivas” propostas pela historiografia da resistência que contém dinamicidade e crítica “ampliam, ao invés de contradizer, os três postulados básicos” analizados, a não resignação dos povos africanos diante da chamada “pacificação” europeia, a base racional e organizada das revoltas em contradição a base ilógica e a significativa importância que esses movimentos tiveram e ainda tem hoje.


A contextualização do texto no debate acadêmico pode ser feita a partir da perspectiva de que o autor refuta ideias disseminadas pela historiografia tradicional europeia no decorrer de um longo debate acadêmico, desfazendo preconceitos culturais e raciais, de que os povos africanos seriam incapazes de organizar revoltas inteligentes e lógicas, por exemplo. Tal perspectiva pode ser usada também para a contextualização no contexto do tema das aulas, pois o texto procura ultrapassar preconceitos como o chauvinismo cultural, darwinismo social e coloca os povos africanos como agentes de decisão de seu próprio futuro e não apenas passíveis a todo o processo colonial que envolvia o continente africano.
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